Abandono e caos no Hospital de Brazlândia

Em visita na manhã desta quinta-feira (21), SindMédico-DF registrou um verdadeiro cenário de guerra na unidade, com déficit de profissionais e infraestrutura precária

Uma criança internada, em um corredor, junto a adultos. Uma sala de isolamento, sem isolamento, e um paciente com suspeita de meningite em meio a outros.  Paredes descascando, pessoas deitadas em “leitos” improvisados, até no chão.  Estruturas com infiltrações, baratas e formigas dentro de consultórios e, do lado de fora, a angústia de quem precisa de atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Esse, hoje, é o retrato do Hospital Regional de Brazlândia. O déficit de profissionais, como médicos, por exemplo, se soma à lista de problemas que parecem ser ignorados por sucessivos governos.

Costumeiramente, os plantões contam com apenas um médico ou, no máximo, dois médicos frente à emergência. Isso acontece tanto no pronto-socorro quanto em outras áreas, como a ginecologia, a pediatria e até a cirurgia. Segundo relatos, há situações em que é preciso atender 50 pessoas internadas, seis que aguardam por vagas de UTI e mais 20 na enfermaria. “O profissional que trabalha aqui está sobrecarregado e se desdobrando para dar conta. Essa é a única verdade”, afirma um servidor. “Ninguém fica parado. Se a porta está parada é porque aqui dentro têm pessoas internadas sendo atendidas”, completa.

Além da estrutura interna, que não colabora para o atendimento digno à população, faltam ambulâncias do SAMU para remoção de pacientes. Isso, detalhe, quando finalmente se consegue vaga em outro hospital. Porque, apesar de mais evidente, o HRBz não é o único que precisa, com urgência, de investimento. “Dos 14 hospitais da rede no DF, o HRBz talvez seja o que está pior. Mas, fato é que todos estão em péssimas condições. Não tem equipe, não tem instrumentos, não tem medicamentos suficientes”, conta um funcionário.

O sistema trackare, denunciaram, é outro problema dentro do hospital. Como os computadores não são trocados há mais de 15 anos, a ferramenta trava com frequência, durante prescrições de medicamentos e registro de históricos; que compromete todo o atendimento. A falta de espaço na unidade também é impedimento para dar conta de toda a demanda. Faltam leitos de internação em todas as alas. Em alguns dias, os consultórios são transformados em leitos para tentar suprir o déficit. Mesmo assim, faltam até macas. No improviso, o papelão, no chão, substitui a cama: um cenário de guerra.

Não raro, pediatras têm que atender na neonatologia. Porque o déficit desses profissionais é uma constante em toda a rede. Crianças ficam internadas na ala dos adultos porque faltam leitos de internação na pediatria. Mães dividem-se em bancos para poder amamentar os menores e os médicos fazem o atendimento ali mesmo, nos corredores, do jeito que podem. “Tem que denunciar essa situação mesmo. É muito humilhante estar aqui nessas condições”, diz uma paciente. Também faltam obstetras.

A sala de prescrição do pronto-socorro virou uma espécie de almoxarifado, onde também são colocadas pilhas de caixas. E é nesse local, onde mal cabem os computadores, que os médicos fazem parte do serviço, entre paredes e parte do teto mofado.

Segurança

Mais recente, outro problema começou a fazer parte da rotina dos servidores do hospital: a insegurança. Após a divulgação de um vídeo, nas redes sociais, acusando, inveridicamente, médicos de negarem atendimento, a população se voltou contra os profissionais da unidade. E, segundo servidores, alguns “entram agressivos nos consultórios”. “O que esse PM fez é irreparável. Trabalhamos, hoje, com medo. O prejuízo é irreparável. A população está agressiva com quem está atendendo”, conta um servidor.

Solução

Para o presidente do SindMédico-DF, Dr. Gutemberg, que passou parte da manhã desta quinta-feira (21) no hospital, junto ao vice, Carlos Fernando, para constatar, in loco, os principais problemas da unidade, a solução está em investimento e gestão. “Esse hospital precisa de reformas. Precisa de contratações e precisa, principalmente, de boa gestão. É necessário e urgente, para além de exonerações, buscar alternativas para os problemas reais da rede pública de Saúde do DF”, aponta.

O vice-presidente, Carlos Fernando, considera que a visita do sindicato e do CRM-DF foi fundamental para trazer à luz o que, em geral, a população desconhece. “Vamos levar essas denúncias, com toda a certeza, aos órgãos responsáveis. O poder público precisa tomar providências sobre o estado de abandono do Hospital de Brazlândia. É desumano o que acontece ali”, salienta.

A presidente do Sindicato dos Odontologistas (SODF), Jeovânia Rodrigues, também participou da visita. Segundo ela, o vídeo gravado na unidade, sem autorização dos profissionais, é “uma atitude criminosa” e que não condiz com a verdade dos fatos. “Não havia pacientes para os dentistas que foram gravados aqui. Não havia atendimento para fazer”, afirma.

O SindMédico-DF já afirmou que vai denunciar à Corregedoria da Polícia Militar a atitude do PM dentro do Hospital de Brazlândia. “Além de não condizer com a verdade, os vídeos são, claramente, uma forma de autopromoção de um policial que quer ser candidato em 2022, como ele mesmo afirma em suas redes sociais”, destaca Dr. Gutemberg.

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