Terça-feira, 14 de abril, 15h: estamos no auge do período das doenças respiratórias, que afetam em cheio os grupos mais vulneráveis da nossa comunidade – os idosos e as crianças. Na porta do Pronto-Socorro do Hospital Materno Infantil de Brasília, o HMIB, 30 crianças aguardam atendimento – e a quantidade tende a aumentar mais tarde. A escala médica não esta completa e, por isso, o atendimento demora mais do que deveria. Doentes, as crianças sofrem. Mães e pais que acompanham os filhos estão impacientes.
O HMIB é o hospital de referência para o atendimento pediátrico na rede pública do Distrito Federal inteiro. E os pediatras do PS do HMIB são responsáveis pelo atendimento da porta e pelos pacientes internados no PS. À tarde e à noite, são responsáveis pelos pacientes internados nos 50 leitos das enfermarias e ainda têm que orientar os estudantes de internato e residentes.
Além de tudo, ainda tem pacientes graves no PS, aguardando vagas de leitos de UTI. A rede pública de saúde do DF tem 92 leitos de UTI pediátrica, mas 13 deles estão fechados – 11 deles por falta de recursos humanos. Enquanto escrevo este artigo, 23 crianças no DF aguardam leitos de UTI na rede pública de saúde.
A equipe médica do HMIB, reduzida como está, chegou a ficar com 14 pacientes à espera de leito de UTI. No próprio HMIB, quatro leitos de UTI pediátrica estão fechados por falta de equipe de enfermagem. Na UTI neonatal são oito. Com leitos de UTI parados e sem poder remover as crianças internadas em estado grave no PS para o local adequado, também fica limitada a capacidade de internação para outros pacientes – os que esperam indefinidamente na porta do hospital.
A empresa contratada, a Lifecare Excelência S/A foi habilitada em fevereiro de 2026, para providenciar médicos para fornecer 3.432 plantões de seis horas de serviço pediátrico em um período de 12 meses. A empresa tinha 223 plantões para cobrir este mês, mas só indicou médicos para 116 deles. Praticamente a metade (107) está descoberta e quem tem que se virar são os pediatras do quadro fixo da Secretaria de Saúde. E os pacientes? Vão ter que esperar.
A escala de trabalho de maio já tem os nomes e horários de trabalho dos médicos do quadro fixo do HMIB – as escalas de serviço têm que ficar prontas com antecedência de um mês. Até hoje a empresa contratada não indicou um nome sequer para compor a escala. E se não indicar, haverá dias em que onde deviam estar cinco médicos atendendo, estarão apenas dois. E como ficam as crianças e as famílias lá fora, naquela espera agoniante? Como ficam os médicos e demais profissionais de saúde sobrecarregados de trabalho?
O Distrito Federal tem 1.940 pediatras com registro ativo no Conselho Regional de Medicina, mas no quadro da Secretaria de Saúde são apenas 408, pouco mais de 20% dos pediatras existentes na cidade. Com uma população estimada em 555 mil pessoas entre 1 e 14 anos, a oferta de assistência pediátrica do GDF para nossas crianças não chega a um pediatra para cada grupo de 1 mil delas.
Em 2014, tínhamos 684 médicos pediatras para atender a uma população menos de crianças. Mais de 40% desses profissionais se aposentaram ou pediram demissão porque não encontraram mais na rede pública as condições de trabalho suficientes para dar um bom atendimento às crianças nem remuneração justa pelo seu trabalho. O GDF apenas lavou as mãos e deixou acontecer.
A partir de 2025, passou a contratar empresas de fora do DF que subcontratam médicos do Distrito Federal – aqueles mesmos que o GDF não contrata por concurso – para tapar os buracos das escalas de plantão médico. Só que não funcionou adequadamente o ano passado e, como estamos vendo acontecer no HMIB, não está funcionando de novo.
A empresa contratada disputa profissionais com a rede privada, que oferece vagas de trabalho que não são temporárias. A empresa contratada deixa de providenciar os médicos para cobrir as escalas incompletas nos hospitais públicos e não acontece nada com ela. Quem sofre as consequências são as crianças doentes e suas famílias, os médicos e demais profissionais de saúde que adoecem pela sobrecarga de serviço.
A solução é óbvia: se a Secretaria de Saúde já teve quase 700 pediatras, pode voltar a ter e até mais, porque há mais especialistas dessa área no mercado do que havia em 2014. E eles estão dispostos a trabalhar no serviço público de saúde desde que os salários e as condições de trabalho sejam atraentes. A questão é que, há anos, o GDF não mostra vontade política de criar as condições para que as nossas crianças tenham o cuidado adequado. Mas sempre há tempo de mudar e o tempo certo é o agora.

