A história transformou o imperador romano Nero em símbolo de um poder indiferente ao colapso que se desenrolava diante de seus olhos. Independentemente de o incêndio de Roma ter sido literal ou não, o que ficou foi a imagem de um governante desconectado da realidade do povo, incapaz — ou desinteressado — de conter a destruição.
Séculos depois, a lógica se repete. Não em chamas, mas em números. E, sobretudo, na apropriação do que é público como se fosse privado, em decisões personalistas e no uso do Estado para sustentar escolhas que não servem à coletividade. No Distrito Federal, esse risco não é simbólico: ele ameaça o orçamento, os serviços essenciais e o futuro de milhares de pessoas.
O debate sobre um possível aporte do Governo do Distrito Federal ao Banco de Brasília (BRB) não é apenas técnico nem restrito ao sistema financeiro. Ele revela uma lógica perigosa: a de tratar recursos públicos como instrumentos para corrigir decisões políticas equivocadas. Seus efeitos atingem diretamente a capacidade do Estado de financiar a Saúde, a Educação e de honrar compromissos com servidores ativos e aposentados.
É preciso lembrar um ponto central: o governador Ibaneis Rocha apoiou publicamente a operação que resultou na tentativa de compra do Banco Master. À época, afirmou que se tratava de uma oportunidade, não de um risco. Defendeu a expansão do BRB, a chamada “nacionalização” do banco e prometeu novos negócios e aumento de lucros.
Essa lógica de apropriação do público já havia se manifestado antes, como quando um banco estatal foi direcionado a patrocinar o time de futebol do coração do governador, em detrimento do esporte local — um gesto que evidencia como preferências pessoais passaram a orientar o uso de recursos que pertencem à sociedade.
Agora, o próprio GDF sinaliza a possibilidade de realizar aportes financeiros no BRB para cobrir prejuízos decorrentes dessa operação. Em outras palavras: o risco que não existia passou a exigir dinheiro público para ser contido. Estimativas iniciais apontam prejuízo de R$ 4 bilhões, podendo ser ainda maior. O BRB teria informado ao governo a necessidade de aportes urgentes para manter suas operações, e o próprio governador já declarou que fará “o que for preciso” para resolver os problemas do banco.
Analistas alertam que, se o aporte se concretizar, o dinheiro virá da arrecadação tributária. Recursos públicos não surgem do nada. Qualquer capitalização do BRB significará menos recursos para Saúde, Educação, políticas sociais, salários em dia, reajustes salariais e outros compromissos fundamentais.
O cenário se agrava quando se observa a situação do Instituto de Previdência dos Servidores do Distrito Federal (IPREV). O instituto enfrenta dificuldades financeiras conhecidas e opera sob forte pressão para garantir o pagamento de aposentadorias e pensões. Esse dado não é secundário: o IPREV é o segundo maior acionista do BRB, com cerca de 19% das ações.
Esses papéis integram o Fundo Solidário Garantidor, criado para proteger o sistema previdenciário em momentos de insuficiência financeira. Com a desvalorização das ações do BRB, cresce o risco de perdas relevantes nesse fundo, fragilizando ainda mais a reserva que deveria assegurar a aposentadoria dos servidores do DF.
A crise, portanto, não se limita ao sistema financeiro. Ela alcança as suas economias, amplia a pressão sobre o Tesouro do DF e reduz a margem para investimentos essenciais. Na Saúde pública, os efeitos são conhecidos: leitos fechados, repasses atrasados, políticas sociais estranguladas.
Não se trata de demonizar o BRB, uma instituição estratégica para o Distrito Federal. O problema está na condução personalista, na naturalização do risco e na transferência recorrente dos prejuízos para a sociedade. Se os riscos assumidos fossem pessoais, a conta deveria ser pessoal. Mas, quando decisões individualizadas dão errado, o prejuízo é empurrado para o orçamento coletivo — para servidores, pacientes e contribuintes que não participaram dessas escolhas.
Governar como Nero não é apenas ignorar o colapso. É fingir que o incêndio não foi provocado por decisões concretas. No Distrito Federal, o fogo consome o orçamento, a previdência, a Saúde e a Educação. Queima em silêncio, nos aportes bilionários e na socialização dos prejuízos.
Diante desse cenário, o silêncio não é opção. É fundamental exigir transparência, auditorias independentes e explicações claras. O governo precisa dizer qual é o tamanho real do problema e, sobretudo, quem vai pagar essa conta. Porque, no fim, alguém sempre paga. E o risco é que, mais uma vez, sejam os mesmos de sempre: a população.


