O bom funcionamento do SUS não é apenas uma questão de justiça social ou de saúde pública. É também uma alavanca essencial para a economia nacional e para a construção do futuro do Brasil. O argumento poderia desdobrar-se em muitas frentes, mas neste artigo concentro-me num público que, a cada dia, ocupa um lugar mais central na pauta sanitária do país: o idoso.

No último ano, cresceu 3,1% o número de pessoas com mais de 59 anos que mantêm planos de saúde no Brasil. São cerca de 8,7 milhões de vidas — a expressão que o setor utiliza para se referir a pessoas —, o que equivale a aproximadamente 17% do total de 53 milhões de beneficiários da saúde suplementar. Esse é um custo que pesa sobre quem já atravessou a vida inteira trabalhando, educando filhos e construindo um patrimônio. Justamente na fase em que a renda pessoal tende a diminuir e as necessidades de saúde aumentam.

Na disputa voraz pelo PIX do aposentado, o segmento que mais lucra é o da saúde. O resultado prático é que viagens, lazer, pequenas recompensas tão sonhadas para a terceira idade se desfazem em névoa. Os planos de saúde elevam — por vezes chegam a dobrar — o valor das mensalidades quando o beneficiário completa 59 anos. E os reajustes anuais seguem sangrando os bolsos dos idosos, ancorados em índices como a Variação de Custos Médico-Hospitalares e a sinistralidade, uma espécie de frequência alegada de uso dos serviços — que, na prática, funciona como uma caixa-preta que ninguém decifra.

As operadoras não apresentam, de forma clara, as taxas de utilização que justificam reajustes anuais que frequentemente superam 20%. A cada ano que passa, o boleto do idoso fica mais salgado, até o dia em que se torna um cartão vermelho — e o paciente, simplesmente, é expulso do sistema por não ter mais condições de pagar.

A esta altura da vida, além de nem ter em vista as recompensas por uma vida inteira de trabalho, boa parte dos idosos não podem nem se permitir pequenos mimos em uma compra de supermercado.

É aí que o SUS se torna protagonista. O sistema público precisa estar preparado para oferecer assistência de qualidade direta ao aposentado de menor poder aquisitivo. Mais do que isso: tem o potencial de atuar como parâmetro de qualidade para a saúde complementar, forçando os planos e os serviços privados a disputar o paciente com o SUS — oferecendo mais, melhor e a um custo que realmente valha a pena.

No entanto, o que observamos é um SUS cada vez mais fragilizado, despreparado para lidar com o envelhecimento da população, tratando o idoso como um dos elos mais frágeis e desprezados da cadeia assistencial. Por isso, os mais velhos e suas famílias se sacrificam para manter um plano de saúde; as operadoras exploram esses pacientes (além dos próprios prestadores de serviço) em busca do maior lucro possível, descartando-os quando deixam de ser rentáveis, com aumentos que beiram o insustentável.

Por tudo isso, é imperativo melhorar a gestão, aumentar o financiamento do SUS e tratá-lo não como política aleatória de governo, mas como política de Estado. O SUS é fundamental não apenas para garantir dignidade e tranquilidade a quem dedicou a vida à construção do país, mas também para fomentar o desenvolvimento econômico sustentável. Cuidar dos idosos é cuidar do presente olhando para o futuro. E esse futuro começa agora.