O presidente do Sindicato dos Médicos do Distrito Federal realizou visitas técnicas à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) I de Ceilândia e ao Hospital Cidade do Sol, para apurar denúncias de situações que afetam diretamente a qualidade do atendimento à população.
Equipamento de raio-x com defeito e fora de uso há três meses – A UPA está sem serviço de raio-x desde o dia 12 de novembro de 2025, totalizando mais de três meses sem reparo. Segundo o portal InfoSaúde, no ano passado foram realizados 20.866 exames de radiografia naquela unidade, até a data da quebra do equipamento – uma média de 2 mil exames por mês. Desde então, estima-se que mais de 6 mil exames de imagem dessa natureza deixaram de ser realizados.
Sem a realização do exame naquela unidade, os pacientes adultos passaram a ser levados de ambulância até a UPA de Samambaia e as crianças, à UPA do Recanto das Emas para fazerem os exames de imagem. A demora no transporte por ambulância pode durar até um dia inteiro.
Aumento da superlotação – Uma série de problemas se encadeia em função do defeito no equipamento: do lado dos pacientes, a demora na espera pela disponibilização, que é um serviço terceirizado. Enquanto o transporte não chega, os pacientes ficam pelos corredores, em macas, cadeiras, quando não sentados no chão, pela insuficiência de mobiliário.
O envio das ambulâncias é feito por meio do sistema de regulação e os pacientes de menor gravidade podem ficar, segundo relatado, até um dia inteiro esperando a disponibilidade de um veículo.
Interrupção do fluxo assistencial e da rotação de leitos – Sem o exame, o diagnóstico dos pacientes não é fechado, o que prejudica a prescrição de tratamento emperra o fluxo dos tratamentos e da dispensa dos pacientes. Com a UPA lotada, aumenta o risco dos pacientes contraírem algum tipo de infecção, fora o desconforto e a sensação de desassistência, que gera indisposição e revolta.
Aumento da insegurança para pacientes e profissionais de saúde – Para os profissionais de saúde, a ausência de exames compromete a segurança diagnóstica e amplia a tensão no ambiente assistencial. A demora no atendimento e a impossibilidade de concluir condutas geram insatisfação entre pacientes e acompanhantes, que, não raramente, se exaltam. O resultado é o aumento da insegurança — tanto no exercício técnico da medicina quanto na integridade física das equipes. Em apenas uma semana, segundo relatos, uma médica e dois outros profissionais foram agredidos dentro da unidade.
Apesar do cenário de risco evidente, não há medidas proporcionais de contenção. O número de vigilantes é insuficiente para rondas internas regulares e, em diversas situações, esses profissionais acabam deslocados para auxiliar na locomoção de pacientes com dificuldade de mobilidade, reduzindo ainda mais a proteção das equipes assistenciais.Nos consultórios da pediatria existem “botões de pânico” usados para acionar os vigilantes em casos de conflito. Na clínica médica esses dispositivos não existem e foi justamente onde a médica foi agredida.
“As câmeras instaladas, mesmo havendo a interligação com a Secretaria de Segurança Pública não vão impedir que os atos violentos ocorram. As imagens só servirão para posterior apuração dos fatos e responsabilização de quem comete atos violentos”, aponta o presidente do SindMédico.
Desrespeito e assédio aos trabalhadores – Diante de um quadro de profissionais de saúde exíguo, as trabalhadoras agredidas foram cobradas a continuar o atendimento, sem nenhuma consideração sobre a condição emocional para permanecer em serviço.
Elevação do custo assistencial – Além dos problemas operacionais, a falta do equipamento de raio-x implica em elevação de custo na assistência. A previsão para conserto do equipamento é março.
O preenchimento das escalas na UPA I de Ceilândia depende da prestação de horas extras. Com o atraso do pagamento referente a novembro, muitos estão se recusando a continuar estendendo a jornada de trabalho e as escalas estão ficando incompletas.
Para piorar, 12 médicas pediatras estão grávidas e não há reserva técnica suficiente para cobrir os turnos de trabalho dessas funcionárias do Iges.
Falta de medicamentos e insumos – À superlotação, insuficiência de profissionais de saúde, falta de um exame básico como o de raio-x se acumula da falta de medicamentos como AAs, benzetacil e troponina, uma proteína usada para detectar lesões no músculo cardíaco, como no infarto agudo do miocárdio.
Problemas da UPA se repetem no Hospital Cidade do Sol
Há 50 passos da UPA, o Hospital Cidade do Sol, que funciona em um galpão adaptado apenas como enfermaria de retaguarda sem atendimento de porta, o aparelho de raio-x também estava quebrado no dia da visita. Segundo informado, estava fora de uso há duas semanas. Quando necessitam do exame, os pacientes são levados para o Hospital Regional de Santa Maria, enfrentando a mesma carência de ambulâncias.
“A falta do raio-x impede diagnósticos essenciais para condições como problemas pulmonares, pneumonia ou avaliações prévias para intubação, colocando a vida dos pacientes em risco”, enfatiza Dr. Gutemberg, apontando que ali a situação é, sob certo aspecto, mais grave do que na UPA, pois são pacientes já internados e passíveis a intercorrências no período de internação.
Lá também foi relatada falta de medicamentos e insumos e de profissionais. No momento da visita, às 16h25 do dia 12/05, a administração de medicamentos estava atrasada, indicando falha na organização e capacidade assistencial abaixo do necessário.
Com 60 leitos e uma ocupação média de 90% deles, muitas vezes há apenas um médico para prestar assistência aos pacientes internados, o que representa risco elevado para os pacientes encaminhados àquela unidade de saúde.
Por fim, não foram feitas todas as adequações devidas no galpão ocupado pelo Hospital Cidade do Sol. Os vigilantes em serviço na unidade dispõe apenas de um balcão na área externa da unidade de saúde e não de uma guarita que lhes proporcione proteção contra frio, calor, poeira ou eventuais agressões. Nessas condições, o eventual trânsito deles pela área de internação pode representar risco sanitário aos pacientes internados.
O relatório das visitas técnicas será encaminhado à presidência do Iges, com pedido de solução para os problemas relatados, ao Conselho Regional de Medicina do DF e aos demais órgãos de controle para a cobrança de adequação das unidades de saúde as padrões operacionais devidos.
A medida também se impõe no sentido de proteger os médicos e demais profissionais de saúde do questionamento e/ou responsabilização (administrativa, ética, cível ou criminal) por eventuais ocorrências adversas causadas pelas condições adversas de trabalho e de assistência aos pacientes.
“A argumentação do atual governo para criar o Iges-DF consistia em facilidade de contratação, rapidez na aquisição de insumos, equipamentos e serviços. No entanto, vemos ocorrer no Iges as mesmas mazelas que a má gestão provoca nas unidades de saúde sob administração direta da Secretaria de Saúde do DF”, observa Dr. Gutemberg Fialho.

