Banco Master: não é acareação. É confraria

Banco Master: não é acareação. É confraria

Em mais um capítulo do escândalo envolvendo o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB), tentou-se vestir de acareação o que jamais preencheu os requisitos jurídicos, técnicos e republicanos desse instrumento extremo de investigação. Desde o início, a iniciativa esteve menos comprometida com a busca da verdade e mais alinhada a uma encenação institucional perigosa: que coloca em xeque a credibilidade das instituições financeiras do País.
Acareações existem para confrontar versões divergentes, quando há contradições claras entre depoimentos já prestados. Elas servem à elucidação dos fatos. O que se tentou construir no caso do Banco Master, porém, foi outra coisa: um encontro precoce, deslocado no tempo da investigação, sem versões consolidadas, cercado de pressões, coincidências e interesses poderosos.
Não se trata de apurar contradições, mas de reunir personagens cujos interesses se cruzam de forma evidente: Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, que buscava vender ou salvar a instituição; Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB, disposto a conduzir uma operação de compra altamente controversa; e, no ponto mais sensível dessa engrenagem, Ailton de Aquino Santos, diretor de Fiscalização do Banco Central, a autoridade que teria de aprovar, chancelar ou barrar movimentos de alto risco para o sistema financeiro. Ele era declaradamente contra a liquidação do Banco Master.
Mesmo sem acareação imediata, o que se tentou montar não foi justiça. Foi um arranjo informal que coloca investigados frente a frente com o regulador, não para esclarecer fatos, mas para constranger instituições, pressionar a área técnica do Banco Central, fabricar narrativas e tentar inverter a lógica da responsabilidade em um dos maiores escândalos financeiros recentes envolvendo recursos públicos.
Uma confraria entre amigos, relações cruzadas e interesses sensíveis, que reúne investigados e um representante do Estado regulador não para esclarecer fatos, mas para constranger instituições, intimidar a área técnica do Banco Central, fabricar narrativas e tentar inverter a lógica da responsabilidade em um dos maiores escândalos financeiros recentes envolvendo recursos públicos.
A investigação ainda está em fase inicial. Não houve sequer o ciclo completo de depoimentos. Não existem versões consolidadas a serem confrontadas. Ainda assim, tentou-se colocar frente a frente o ex-presidente do Banco Master, Daniel Vorcaro, o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, e o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino Santos.
Os próprios fatos, contudo, trataram de desmontar a urgência artificial que se tentou impor ao caso. Após alerta da Polícia Federal, a chamada acareação foi adiada para 2026. O motivo é eloquente: o volume de informações apreendidas na Operação Compliance Zero — especialmente as transcrições extraídas do celular de Daniel Vorcaro — é tão grande que sequer foi totalmente processado.
Em outras palavras, não há base técnica nem maturidade investigativa para uma acareação agora. A prioridade passou a ser ouvir separadamente o fundador do Banco Master, um diretor do Banco Central e o ex-presidente do BRB. Só depois — talvez — colocá-los frente a frente.
O adiamento apenas confirma o que já era evidente desde o início: a tentativa de antecipar esse encontro não respondia a uma necessidade jurídica real, mas a uma encenação institucional. Uma acareação sem versões consolidadas, sem contradições formalizadas e sem análise completa das provas não busca a verdade — produz pressão, constrangimento e ruído político.
O pano de fundo é gravíssimo. Apura-se um suposto esquema de emissão e venda de títulos sem lastro real, com prejuízos estimados em até R$ 12,2 bilhões — dinheiro público, oriundo do Banco de Brasília, um banco estatal. O mesmo BRB que, em determinado momento, chegou a cogitar a compra de 58% do Banco Master, mantendo Vorcaro no comando. Um movimento que soou menos como operação de mercado e mais como tentativa de resgate financeiro.
Não por acaso, a liquidação extrajudicial do Banco Master foi uma decisão colegiada do Banco Central, respaldada por critérios técnicos, legais e prudenciais. Não foi um ato isolado. Não foi pessoal. Não foi político. Foi regulatório — como exige qualquer sistema financeiro minimamente sério.
É justamente essa decisão que agora parece estar sob ataque.
Segundo reportagens amplamente divulgadas, a estratégia da defesa seria minar a credibilidade do Banco Central, criar ruídos, expor dirigentes, levantar suspeitas artificiais e, no limite, tentar anular a investigação, reverter a liquidação e até pleitear indenizações futuras. Uma inversão completa da lógica institucional: transformar o regulador em réu e o investigado em vítima.
O próprio Banco Central alertou para o risco de “armadilhas processuais” e de constrangimento institucional. A Procuradoria-Geral da República classificou a acareação como prematura. Associações do sistema financeiro saíram em defesa da autoridade monetária. Nada disso foi suficiente para evitar o dano institucional já causado.
O vai-e-vem decisório, a pressa inicial e o recuo posterior produzem um efeito que vai muito além do processo. Instalam a insegurança institucional. Investidores, agentes do mercado e observadores internacionais acompanham atentamente quando o sistema de Justiça parece oscilar entre a urgência política e o freio técnico. Não há ambiente econômico saudável onde regras são instáveis e instituições reguladoras são expostas a constrangimentos públicos antes do tempo.
Como se não bastasse, pesam ainda fatos que agravam a percepção pública sobre a lisura e a prudência institucional desse processo. Entre eles, a informação de que o ministro Dias Toffoli teria viajado para a final da Libertadores ao lado de advogado ligado ao caso do Banco Master — episódio que, no mínimo, compromete a confiança da sociedade na necessária distância entre julgador e interesses privados em disputa.
É preciso dizer com todas as letras: enfraquecer o Banco Central não é uma questão corporativa. É um risco sistêmico. Quando técnicos são expostos, constrangidos ou intimidados por pressões políticas e encenações processuais, quem perde é o país.
Quem paga a conta não são banqueiros nem escritórios de advocacia sofisticados. Quem paga é a sociedade. São os serviços públicos. É o orçamento que deixa de ir para saúde, educação e políticas sociais.
Quando instituições reguladoras são desmoralizadas, o recado é claro: a regra vale para alguns, mas não para todos.
Como médico e como presidente de um sindicato que defende o interesse público, sei muito bem onde isso termina. Termina com o Estado fragilizado, com a captura das instituições e com a conta chegando, mais uma vez, para quem trabalha e depende de políticas públicas.
O Brasil precisa de instituições fortes, autônomas e respeitadas — não de confrarias travestidas de acareação, nem de encenações processuais que servem mais para acomodar interesses do que para produzir justiça.
Se o objetivo é esclarecer os fatos, que se respeite o tempo da investigação, o devido processo legal e a separação clara entre quem regula e quem é investigado. Fora disso, não é justiça. É teatro.
E, neste caso, um teatro caro — pago, como sempre, pelo povo brasileiro.