Centro obstétrico do HMIB em mais uma crise

Mediar conflito e buscar soluções para problemas enfrentados na assistência à pacientes no Centro Obstétrico do Hospital Materno Infantil de Brasília (HMIB) foi a proposta da reunião realizada pelo Sindicato dos Médicos do Distrito Federal (SindMédico-DF), na noite desta quarta-feira (29).

Foram convidados os médicos gineco-obstetras lotados na unidade, o diretor do hospital, Rodolfo Alves Paulo de Souza; a diretora da especialidade na Secretaria de Estado de Saúde do DF (SES-DF), Marta de Betânia Rabelo Teixeira; e a Subsecretária de Atenção Integral à Saúde, Moema Liziane Silva Campos. Os médicos se fizeram representar em número significativo. Os gestores não compareceram nem enviaram representantes.

Tendo tomado conhecimento da reunião, também compareceram as procuradoras Cláudia Fernanda de Oliveira Pereira, do Ministério Público de Contas do Distrito Federal (MPC-DF), e Renata Coelho, do Ministério Público do Trabalho do DF (MPT-DF). Elas informaram que o interesse no encontro se devia ao fato de haver inquéritos referentes à situação no HMIB em curso nos dois órgãos.

Alta complexidade nos partos e serviços diversos

Foi ressaltado que, apesar de ter maior número de gineco-obstetras do que outras unidades de saúde do DF, o HMIB é referência em partos de alta complexidade e serviços como reprodução assistida e cirurgia pediátrica e neonatal. Lá se realiza o atendimento de partos abaixo de 28 semanas. São 32 leitos de alto risco com demanda potencial 24 horas por dia.

Equipe reduzida e adoecimento

Foi relatado que equipes de três ou dois médicos ficam responsáveis em seus respectivos turnos por atendimentos de pacientes que chegam, acompanhamento de pacientes internadas, realização de partos e realização de cirurgias de pacientes internadas em Unidade de Terapia Intensiva. Em partos cesarianos ou outros procedimentos cirúrgicos, dois médicos realizam o procedimento e um fica responsável por todo o resto, o que aumenta o tempo de espera para o atendimento de quem está fora ou pode impedir a evolução de quem está internado.

As filas de espera na emergência da gineco-obstetrícia, segundo exposto, variam de quatro horas, nos dias leves, a 14 horas nos dias em que há mais demanda ou maior quantidade de intercorrências. A demanda média é de 28 a 30 pacientes de alto risco diariamente.

Foram relatados dois casos de tromboembolismo entre médicos da equipe, profissionais trabalhando sob uso continuado de antidepressivos e ansiolíticos e aumento na ocorrência de adoecimento dos médicos residentes. Também foi relatado que os médicos residentes cogitam greve pelas condições em que estão expostos em seu treinamento em serviço. As condições adversas estão levando os médicos do setor a pedir redução de carga horária de 40 horas semanais para 20 horas e a cogitar pedidos de demissão. Dois dos presentes relataram ter esse desejo e ouviram apelos das procuradoras para que não o fizessem.

Deficiência de recursos materiais

Foi relatado que o Centro Obstétrico teve um aparelho de ultrassom, modelo de 2009, substituído por um mais antigo, de 1998, cuja qualidade de imagem prejudica a análise dos exames e correto diagnóstico de pacientes e não tem resolução para ecografia transvaginal – a mesma paciente, se submetida ao exame nos dois equipamentos, apresenta resultados divergentes. O exame pode ser essencial para indicação de parto cesariano.

Focos (de luz) cirúrgicos, usados para cirurgias, apresentam problemas há oito anos. Foi relatado que até lanternas de celulares são usadas de improviso para melhorar a visão dos médicos durante a realização de procedimentos – os acompanhantes são convidados a ajudar, segurando os aparelhos.

Embora a SES-DF apresente relatórios e documentação que atestam a qualidade do material adquirido, os médicos se queixam da qualidade das luvas cirúrgicas e afirmam que é praxe que rasguem durante os procedimentos, o que leva os profissionais a usarem duas ao mesmo tempo.

O Centro Obstétrico do Hmib, apesar de ser unidade de referência para partos de alta complexidade, está desprovido de tocógrafos, que são equipamentos de monitoração fetal e uterina. Os sonares estão sem manutenção e, para poderem trabalhar, os médicos da unidade levam aparelhos próprios.

Faltam fitas de PH, usadas para verificação de rompimento de bolsa, reagentes. A falta de camisolas para pacientes e roupas cirúrgicas para a equipe médica é recorrente.

Ao final, os médicos foram instados a apresentar denúncias à medida que os fatos ligados aos problemas existentes se desenrolarem, no mesmo dia de preferência, para averiguação imediata pelos órgãos de controle. No Ministério Público do Trabalho pode ser feita presencialmente ou por escrito (de próprio punho), com indicação do número do inquérito para anexação. No Ministério Público de Contas, as denúncias podem ser feitas por meio da ouvidoria, on-line, por telefone ou por escrito. As denúncias podem ser anônimas ou sob pedido de preservação da identidade dos denunciantes.

O presidente do SindMédico-DF voltou a lembrar os presentes que o sindicato tradicionalmente recebe as queixas dos médicos e assume as denúncias junto aos órgãos de controle para preservá-los de eventual perseguição e assédio moral no ambiente de trabalho.

“Lamentamos a ausência da gestão em uma reunião na qual o objetivo era buscar caminhos para equacionar problemas que trazem prejuízo à assistência dos pacientes”, afirmou o presidente do SindMédico-DF, Gutemberg Fialho. 

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