Todo ano a história se repete, desde 2020: pelo menos um terço das cirurgias eletivas agendadas na rede pública de saúde não acontecem – às vezes, a metade delas não é feita. Parte não se realiza porque o próprio paciente não comparece: sem perspectiva de ter o atendimento de que precisa, se endivida para fazer o procedimento em um hospital particular ou vai para outro estado para ser operado, com toda a dificuldade que o deslocamento por questão de doença acarreta. Todos recorrem esperançosos aos hospitais públicos da Capital do Brasil, mas boa parte esbarra em uma realidade cruel.
A maioria das cirurgias eletivas que não são realizadas têm origem na má gestão da Saúde do Distrito Federal: falta de médicos, falta de leitos, equipamentos com defeito, falta de medicamentos e até de roupas para os profissionais de saúde usarem nas salas de cirurgia.
Justificam que houve um represamento em função da pandemia. Mas essa é uma desculpa que já perdeu o prazo de validade e os números da própria Secretaria de Saúde revelam isso. Segundo o Mapa Social do DF, do Ministério Público, em 2023, foram agendadas 31.764 cirurgias eletivas e somente 22.703 foram realizadas. Em 2024 os pedidos aumentaram: foram 34.681, mas a quantidade de cirurgias eletivas realizadas diminuiu – foram 21.214.
Em 2025 o desempenho foi pior ainda: foram agendadas 38.793 cirurgias eletivas e somente 21.772 foram realizadas. Isso apesar de medidas alardeadas pelo GDF para “resolver o problema”. Em julho de 2024, por exemplo, anunciaram que a fila das cirurgias eletivas ia andar mais rápido pela contratação de empresas de prestação de serviço em anestesia, reformas nas unidades de saúde e aquisição de equipamentos. Resultado: 1.579 cirurgias a menos do que em 2023.
As três empresas de anestesia contratadas deveriam realizar 26 mil cirurgias eletivas em 12 meses, a contar de junho de 2024. Daquele mês até maio de 2025 – obviamente isso não aconteceu. No total foram 21 mil cirurgias eletivas, a maioria delas feitas pelos servidores da própria Secretaria de Saúde.
Em outubro de 2025, o GDF anunciou uma “força tarefa” para realizar 15 mil procedimentos nas especialidades de oftalmologia, coloproctologia, cabeça e pescoço, vascular e cirurgia geral em um ano – o OperaDF. Em outubro e novembro pareceu que a coisa ia funcionar. Mas em dezembro de 2025 e janeiro deste ano, o número de cirurgias despencou para um patamar inferior ao de janeiro de 2025.
Quando se olha o tempo de espera por cirurgias eletivas no período de um ano parece até que vamos bem. Em 2025 os pacientes esperaram, em média, 244 dias. Mas como boa parte das cirurgias todo ano deixa de ser realizada, o tempo médio de espera, de 2019 até este ano, pula para 637 dias – quase dois anos!
Sabe o que é esperar dois anos por uma cirurgia? É um tempo que não se conta no calendário. Envolve dor, medo, ansiedade, angústia, sofrimento que poderia ser evitado se a gestão da Saúde do DF funcionasse de forma adequada: com planejamento, metas, fiscalização e controle constante.
E para desemperrar a máquina da saúde, o ponto de partida é a contratação dos médicos e demais profissionais para preencher os postos de trabalho vagos nas unidades públicas de saúde. Mas para isso, o GDF tem que garantir boas condições de trabalho e remuneração adequada.
Esperamos que a recente mudança de governo ponha um novo rumo na gestão da Saúde. Ao assumir, a governadora anunciou o cancelamento da festa de aniversário de Brasília e o uso da verba da comemoração para a contratação de médicos para os postos de saúde – coisa que defendemos há anos. É adequado, mas não passa nem perto de resolver o problema, porque o passivo da saúde do DF é muito grande. Mas é positiva a abertura de diálogo, coisa a que o ex-governador não era afeito.
Ela precisa ter em mente que, quando se amplia a oferta de assistência nos postos de saúde, aumenta a demanda por consultas especializadas, exames e cirurgias. Ou seja, é preciso planejar e viabilizar a contratação de médicos do quadro permanente para dar atendimento à demanda que vai aumentar nos níveis de assistência de média e alta complexidade.
Desde 2019, o que se fez na saúde do DF foi semelhante às operações tapa-buracos nas pistas da cidade: remendos que não resolvem os problemas estruturais. É hora de mudar isso e reinventar a gestão da saúde do Distrito Federal. Seguimos esperançosos de que a realidade dos pacientes e dos profissionais de saúde no sistema público do DF mude para melhor.

