Com número de pediatras concursados em queda no quadro de servidores, aumenta a busca por atendimento a crianças com doenças respiratórias nas unidades públicas de saúde do Distrito Federal. Essa crise na pediatria deve perdurar até o mês de junho.

Segundo o painel de síndromes gripais do Sistema InfoSaúde/SES-DF , até agora, o ápice do atendimento pediátrico a pacientes entre 29 dias de vida e três anos de idade com sintomas gripais, ocorreu na a 14ª semana deste ano (31/03 a 06/04). Até aquele momento, foram prestados 74.594 atendimentos a pacientes com sintomas gripais. Até agora, o ápice da crise na pediatria.

No dia 28 de abril o número total de atendimentos (crianças e adultos) por síndromes gripais aumentou para 85.982. Entre o público de 29 dias e três anos, os atendimentos passaram de 305 para 15.763. Como ocorre todo ano, a demanda por atendimento pediátrico aumenta mais do que em outras especialidades.

“Infelizmente, apesar de todos os alertas, o Governo do Distrito Federal não tomou as medidas necessárias para o enfrentamento desse aumento da demanda”, aponta o presidente do Sindicato dos Médicos do Distrito Federal (SindMédico-DF), Gutemberg Fialho. A assistência pediátrica, que já vinha deficitária, tornou-se caótica e motivo para descontentamento popular, que se faz presente em todas as emergências pediátricas e que culminou com a depredação da recepção da UPA de Ceilândia. a crise na pediatria segue até o final do período de sazonalidade das síndromes gripais, previsto para o final de junho.

Insuficiência de pediatras é crônica

É nesse contexto que se torna mais dramática a insuficiência de médicos no serviço público de saúde do Distrito Federal, que hoje conta com 445 pediatras nas unidades de saúde sob gestão direta da Secretaria de Estado de Saúde do DF (SES-DF). Em contraponto, o Conselho Regional de Medicina do DF (CRM/DF) tem registro de 1.867 pediatras ativos no Distrito Federal.

“Os números da Secretaria de Saúde mostram que é necessário criar as condições adequadas de trabalho e remuneração para contratar pediatras e a realização de novo concurso público. Os registros do CRM, por sua vez, mostram que há profissionais no mercado para serem contratados”, aponta Dr. Gutemberg.

Ele destaca que a tentativa de suprir o déficit desses profissionais por meio de contratação de empresas privadas está se mostrando ineficaz. No início do ano, o Ministério Público de Contas do DF (MPCDF) abriu processo no Tribunal de Contas do DF (MPCDF) contra a contratação da Medprime, Clínica Gestão e Saúde S/A, selecionada pela SES-DF para a prestação de serviços de pediatria por seis meses. O custo desse contrato é de R$ 15.165.319,02.

O Aviso de Abertura da Dispensa Eletrônica nº 90.001/2025 – UASG 926119 previa a contratação, por seis meses, de 14.048 plantões de seis horas escalonados em quatro lotes, que abrangem as diferentes regiões de saúde.  O total de horas seria o equivalente ao trabalho de 175 pediatras estatutários com contratos de 20 horas semanais. Segundo a denúncia do MPCDF, o número de profissionais no ajuste da SES-DF com a Medprime ficou em torno de 38 pediatras, muito inferior ao déficit declarado pela Secretaria de Saúde.

Terceirização não resolve crise na pediatria

O resultado dessa falta de uma política adequada de gestão de pessoas na SES-DF culmina em desassistência aos pacientes, adoecimento dos profissionais que atuam no serviço público e na escalada de reclamações e tumultos nas portas das emergências pediátricas do DF.

Nas UPAs, administradas pelo Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do DF (Iges-DF), a situação não é muito melhor . São apenas 96 os pediatras contratados para atender nas unidades de Ceilândia, Recanto das Emas, Sobradinho e São Sebastião, segundo consta na folha de pagamento do Iges referente ao mês de fevereiro.

Enquanto a dedicação dos médicos concursados nas unidades públicas de saúde é, em média, de 30 horas semanais, os contratados celetistas do Iges têm uma carga horária menor, de 23 horas semanais. Ou seja, a capacidade de resposta do Iges à demanda em pediatria é menor do que a da administração direta.

“Os números confirmam: a terceirização dos serviços de saúde, seja por meio do Iges, seja pela contratação de empresas prestadoras de serviço não é solução para a saúde do DF. É necessário valorizar os médicos, com um plano de carreira, cargos e salários condizente com o mercado de trabalho, dar condições de trabalho adequadas e segurança aos profissionais em serviço. Terceirizações não vão resolver a crise na pediatria nem em outras especialidades”, enfatiza o presidente do SindMédico-DF.

Pediatras nas unidades de saúde administradas pela SES-DF

Tabela mostra reduçaõ de pediatras no quadro da SES-DF