No cinema clássico, o faroeste é definido por uma terra sem lei, um cenário poeirento onde a ordem institucional desmoronou e a sobrevivência depende do improviso. É o império dos “forasteiros”: oportunistas que brotam do nada, fingindo coragem e sacando soluções mágicas para problemas complexos. Infelizmente, a analogia deixou as telas do cinema e passou a descrever, com precisão cruel, a atual realidade da saúde pública no Distrito Federal.

E o gatilho para essa degradação é bem conhecido: o ano eleitoral.

De repente, a saúde do DF virou um palco de oportunismos. Forasteiros que nunca pisaram no chão de uma Unidade Básica de Saúde (UBS), que desconhecem a engenharia complexa que move o Sistema Único de Saúde (SUS), surgem com discursos ensaiados. O “Seu Zé da Esquina”, com todo o respeito à sua sabedoria popular, agora divide espaço com políticos profissionais na audácia de ditar diagnósticos e receitas para uma estrutura que sangra por anos de negligência.

A saúde pública não se resolve com bravatas de palanque ou posts genéricos em redes sociais. Ela é feita de redes de atenção, dimensionamento de pessoal e logística de alta complexidade. Fingir conhecer essa engrenagem para angariar votos não é apenas irresponsabilidade política; é uma crueldade humana.

Enquanto os forasteiros ensaiam seus discursos, a realidade cobra o seu preço em vidas. A ausência de um Estado indutor e protetor transforma a fila do SUS em uma roleta-russa. Recentemente, a tragédia da pequena Valentina, de apenas 11 anos, chocou Brasília. Picada por um escorpião, a menina dependia do que deveria ser o básico em uma capital federal: um leito de UTI na rede pública. Não havia. A falta de estrutura roubou o tempo de socorro.

Quantas Valentinas serão necessárias para que a gestão da saúde seja tratada com a seriedade técnica que exige, tanto na área Executiva quanto na Legislativa?

Para agravar um cenário que já é dramático, a engenharia financeira do DF desenha agora um novo abismo: a crise no Banco de Brasília (BRB). O reflexo desse socorro financeiro ao BRB é uma sentença de estagnação. As propostas de ajuste fiscal cogitam proibir a contratação de novos servidores e a expansão de serviços essenciais.

Como salvar vidas em um sistema que cresce em demanda, mas está legalmente impedido de contratar médicos e ampliar leitos?

Como médico e presidente do Sindicato dos Médicos do DF, afirmo: a saúde do Distrito Federal não precisa de xerifes de ocasião, nem de salvadores da pátria que aparecem de quatro em quatro anos. O DF precisa de gestão profissional, valorização real dos servidores que sustentam o sistema no limite da exaustão, e respeito absoluto ao orçamento público — que não pode ser sacrificado para cobrir rombos bancários.

O faroeste da saúde precisa acabar. A população de Brasília não pode continuar refém de tiros no escuro, de promessas de forasteiros e de malabarismos financeiros que colocam a vida em segundo plano. Saúde é direito constitucional e dever do Estado; transformá-la em mercadoria eleitoral ou moeda de troca fiscal é o sintoma mais grave de uma política que adoeceu. Como diria meu amigo, médico, ex-deputado federal e ex-secretário de saúde do DF, Jofran Frejat: “é preciso fazer a política da saúde. E não política com saúde”.