Servidores do Distrito Federal convivem com um cenário preocupante: decisões administrativas que afetam diretamente sua segurança, seus direitos e sua qualidade de vida vêm sendo tomadas sem a devida transparência e contrárias aos posicionamentos dos representantes dos servidores — e, quase sempre, com consequências graves. A cada crise a pergunta que fica é “qual será a próxima?”
É nesse contexto que surgem os sinais de alerta em torno do Instituto de Assistência à Saúde dos Servidores do Distrito Federal (INAS). Não se trata de acusar ou antecipar conclusões, mas de observar fatos, conectar contextos e fazer a pergunta que qualquer servidor tem o direito — e o dever — de fazer: estamos caminhando para a concretização de mais um problema anunciado?
O plano GDF Saúde, administrado pelo INAS, anunciou o descredenciamento de 226 clínicas e laboratórios da rede conveniada, com encerramento dos atendimentos a partir de 1º de janeiro. Segundo o instituto, a medida decorre do processo de recredenciamento iniciado em outubro de 2024, que atualizou as regras de licitações e contratos públicos. Parte dos prestadores, afirma o INAS, não teria apresentado a documentação exigida ou manifestado interesse nas novas condições contratuais.
Do ponto de vista formal, o procedimento pode estar amparado pela lei. Do ponto de vista social e humano, os impactos são profundos e recaem diretamente sobre quem depende do plano para cuidar da própria saúde.
O Inas sustenta que o GDF Saúde mantém uma rede ampla, formada por hospitais, clínicas especializadas, laboratórios, serviços de telemedicina, cooperativas e cerca de 2.900 prestadores indiretos. Na prática, porém, a realidade vivida pelos servidores é marcada por insegurança. Relatos de medo de interrupção de tratamentos contínuos, dificuldade de encontrar serviços, especialistas, regiões desprovidas de prestadores e risco de aumento de gastos do próprio bolso se multiplicam.
Na saúde, continuidade não é um detalhe administrativo. É condição básica de cuidado.
Esse cenário se agrava porque o descredenciamento em massa entrou em vigor apenas dois meses após o reajuste anual do plano. No fim de 2025, o Inas reajustou os valores do GDF Saúde e criou novas faixas etárias para dependentes, seguindo modelo semelhante ao adotado pelos planos de saúde comerciais, com impacto mais significativo justamente sobre os usuários mais velhos, que mais necessitam de assistência médica.
O resultado é um sentimento crescente de que o GDF Saúde se afasta de sua natureza pública e se aproxima da lógica dos planos privados: mais caro e com rede mais restrita. Além dos efeitos diretos sobre os beneficiários, a gestão do INAS também merece atenção.
O instituto, pela segunda vez consecutiva, está sob a presidência do secretário de Economia do DF, Daniel Carvalho, integrante do núcleo central do governo Ibaneis Rocha, o mesmo ambiente político-administrativo associado às crises do IPREV e do BRB. E não se trata de julgamento pessoal, mas de análise de modelos de gestão. Quando estruturas, decisões e prioridades se repetem, os resultados tendem a seguir o mesmo caminho.
Entre 2017 e 2019, ele foi chefe da unidade de parcerias público-privadas (PPP) da extinta Secretaria de Planejamento do DF. Importa destacar que, no contexto do atual governo, as parcerias público-privadas têm consistido na entrega de recursos públicos à iniciativa privada – privatizações e terceirizações. O que reforça a perspectiva de uma aproximação da dinâmica do funcionamento do GDF Saúde à dos planos de saúde comerciais.
O atual secretário, ainda que de forma indireta, está implicado na questão do rombo do BRB – é ele a figura do governo que fala sobre o uso dos recursos públicos que pertencem à população do DF para cobrir o rombo deixado por um negócio sombrio, sob investigação federal, avalizado pelo atual governo d DF.
Antes dele, o comando do Inas esteve nas mãos de Ney Ferraz Júnior, que também foi secretário de Economia e foi condenado a 9 anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro em função de atos praticados quando era presidente do Instituto de Previdência dos Servidores Públicos do DF, o nosso Iprev, entre 2019 e 2022
Não há, até este momento, denúncia formal de irregularidade no Inas. Mas há sinais claros de alerta: aumento de custos para os servidores, redução expressiva da rede credenciada, decisões administrativas com elevado impacto social e uma gestão ligada a grupos que já protagonizaram crises graves no GDF. Ignorar esses sinais seria repetir erros recentes — erros que custaram caro e ainda custam.
Os servidores não pedem privilégios. Exigem transparência, diálogo e garantias reais de que o GDF Saúde não seguirá o roteiro já conhecido: aumento contínuo de contribuições, piora do serviço e, ao final, a transferência do prejuízo para quem trabalha.
A saúde do servidor público não pode ser tratada como mercadoria, nem como experimento administrativo. Diante do histórico do próprio governo, questionar é dever institucional. Acompanhar de perto o INAS, hoje, é uma atitude de responsabilidade pública.


