O sofrimento invisível das mulheres

Como médico ginecologista, acompanho diariamente a rotina de situações de sofrimento mental e físico das mulheres, agravada pelas insuficiências no sistema público de saúde. Muitas podem ser as condições adversas de saúde decorrentes de quadros de doença crônica ou aguda, com fortes impactos na vida profissional e familiar. Costumo falar, por exemplo, do sofrimento silencioso de mulheres por síndrome do ovário policístico, miomatose uterina, endometriose e outras doenças.

Com doenças que provocam sangramentos e dores constantes, vem uma série de problemas em diversas esferas da vida. No campo físico, irregularidade na ovulação, aumento dos hormônios masculinos com reflexos corporais e anemia. Na vida cotidiana, o julgamento negativo de colegas e chefes, no trabalho, ou mesmo dos companheiros e familiares, em casa. À sensação física ruim se junta o sentimento de inadequação, de não ser suficiente, de não ser valorizada.

Não é possível conviver bem sem se sentir bem consigo mesmo, nem fazer bem aquilo que sempre se fez na vida, quanto mais assumir novos desafios. E a dificuldade para conseguir assistência na rede pública de saúde é imensa. É difícil conseguir uma consulta ginecológica especializada e mais ainda em outras especialidades. Os exames demoram para ser feitos e procedimentos cirúrgicos levam meses, se não anos, para serem feitos. O sofrimento se prolonga desnecessariamente e as doenças se agravam. Isso pode provocar perdas, inclusive afetivas e profissionais. Um problema clínico se torna um problema para além do consultório ou da sala de cirurgia.

No sentido inverso, uma série de situações de vida da mulher brasileira tem impactos diretos em situações crônicas de saúde. E a falta de tempo para o autocuidado, incluídos, lazer e atividades físicas, e a dificuldade de acesso aos serviços públicos de saúde acabam induzindo a quadros de deterioração da saúde física e emocional e da autoestima.

Aumento de peso e uma autoimagem corporal negativa, enxaqueca e hipertensão são alguns dos aspectos que extrapolam as doenças ginecológicas e, mesmo nessa especialidade médica, a falta de periodicidade nas consultas a um especialista pode impedir diagnósticos precoces e agravamento de problemas que seriam de fácil resolução se diagnosticados precocemente. Essas situações são apontadas no Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (Elsa Brasil), iniciativa desenvolvida por instituições de ensino superior brasileiras, com apoio dos ministérios da Saúde e da Ciência e Tecnologia.

Dentro da nossa realidade imperfeita, conflituosa e cheia de demandas, todos temos que criar as condições para nos cuidar e nos concentrar em estar bem com quem somos, para, assim, conseguir lidar melhor com as pressões, desafios e dificuldades do dia a dia, com saúde física e mental.

Tudo começa com o autocuidado e passa pela negociação com quem se divide a vida (companheiros, pais, filhos, chefes e colegas de trabalho). Somos uma sociedade que preza pelo individualismo e egocentrismo e que precisa reaprender a agir com empatia e cuidado com as pessoas ao redor. Isso, claro, não isenta as autoridades sanitárias de estabelecer e executar adequadamente as políticas públicas indispensáveis para a atenção adequada aos quadros de saúde que demandam atenção profissional.

A saúde é indispensável para se ter uma vida equilibrada e o equilíbrio na vida é fundamental para manter a saúde física, mental e emocional. Essa é uma reflexão para toda a sociedade no mês em que celebramos o Dia Internacional da Mulher. Não só para as mulheres, mas também para os homens e instituições.

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