A seca do Cerrado

a seca do cerrado

Mal ultrapassamos 50 dias sem chuvas no Distrito Federal e já entramos na segunda semana de agosto em estado de emergência por causa da baixa umidade, que chegou a ficar aquém de 12% por dias seguidos. É aquela nossa velha amiga, a seca do Cerrado. Com isso, são necessários cuidados redobrados com a saúde. Beber mais líquidos, evitar atividade física intensa nos horários mais críticos, hidratar a pele, usar soro nos olhos e nariz, usar protetor solar e labial são as orientações de sempre.

Interessante lembrar, nesta época, que os cientistas da Missão Cruls que vieram estudar a região do Planalto Central do Brasil, no final do Século XIX, para o projeto de mudança da capital do país, fizeram o seguinte em seu relatório: “… existe no interior do Brazil uma zona gozando de excellente clima com riquezas naturaes, que só pedem braços para serem exploradas”. Afirmação que, certamente, pode soar estranha para um forasteiro que chega a Brasília em plena seca.

Dois médicos compunham a equipe científica da Missão: Antonio Martins de Azevedo Pimentel e Pedro Gouvêa, por assim dizer, os primeiros médicos de Brasília. A salubridade para a vida humana da região era um dos aspectos mais relevantes do levantamento feito pelo grupo. Isso porque, naquela época, a condição sanitária do Rio de Janeiro era precária e considerada um dos fatores que impediam o desenvolvimento do Brasil e causavam uma reputação ruim na Europa.

Não pelos mesmos motivos daquela época, hoje existe também uma grande preocupação mundial acerca da relação entre as condições climáticas e a saúde humana. Tanto que em diversas localidades, inclusive aqui no Brasil, há várias iniciativas de elaboração de políticas públicas para prevenir os efeitos de eventos climáticos extremos na saúde das populações locais.

Existe realmente essa necessidade. A própria seca prolongada já é um motivo para criação de protocolos especiais na rede de saúde e para adoção de políticas públicas, como a instalação de umidificadores e  bebedouros em locais de grande circulação de pessoas, a exemplo dos parques, que já tiveram estes equipamentos, e da Rodoviária do Plano Piloto.

Pessoas com doenças crônicas como hipertensão, doenças cardíacas, diabetes e doenças renais, por exemplo, formam um grupo propenso a ter crises na época de seca. E isso gera demanda nas unidades de saúde. Mas o que observamos é que os atendimentos de emergência, mesmo fora desta época, já sobrecarregam a rede pública.

O número de atendimentos nas emergências dos hospitais já está no limite há anos, variando entre 1,5 e 2 milhões de atendimentos anuais. Nas UPAs ocorre a mesma coisa. Nos postos de saúde, que não deveriam ser pontos de atendimento para emergências, os casos pularam da faixa de 30 mil atendimentos por ano, para quase 90 mil no ano passado.

Este ano a situação é ainda pior – mal passamos da metade do ano e já ultrapassamos 83 mil atendimentos, sem aumentar o contingente de profissionais de saúde para dar vazão a tanta demanda.

Tudo indica que há uma tendência de piora das condições climáticas em todo o mundo. Já é hora de começarmos a pensar nisso e estabelecer estratégias de ação e políticas públicas com foco na preservação das condições de saúde da população aqui no Distrito Federal. É o que deveria fazer o GDF. Mas, pelo visto, parece que aguardam, passivamente, pela chegada de uma nova Missão Cruls.

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