O que leva uma unidade de saúde — espaço de acolhimento, cuidado e esperança — a se transformar em palco de depredação e medo? A resposta está longe de ser simples. E pede que olhemos com cuidado para a realidade do Distrito Federal, onde a violência cresce por falta de getão.
Na última semana, a Unidade Básica de Saúde 1 da Asa Sul foi alvo de vandalismo. Portas destruídas, servidores assustados, atendimento suspenso. Um cenário triste, mas que, infelizmente, não é novidade. Em maio, a mesma unidade já havia enfrentado situação semelhante: um homem foi preso após destruir parte da recepção e ameaçar funcionários. Naquele dia, os servidores protestaram por mais segurança. Poucos meses depois, a história se repete.
Não se trata de um episódio isolado. Segundo dados da Polícia Civil, entre janeiro de 2022 e maio de 2025 foram registradas 475 ocorrências de ameaças e agressões contra profissionais de saúde. Ou seja, em média, a cada 63 horas um servidor — médico, enfermeiro, técnico, vigilante — sofre violência no exercício de sua função. A cada 2,6 dias, um novo crime é registrado em nossas unidades de saúde.
Esse retrato cruel é alimentado pela negligência. Em Ceilândia, neste ano, a restrição no atendimento pediátrico terminou em portas quebradas e equipamentos destruídos. No ano passado, no Recanto das Emas, pacientes revoltados com a demora no atendimento agrediram funcionários e depredaram toda a UPA. Há um padrão em comum: a população, cansada das filas de espera, extravasa sua indignação contra aqueles que estão justamente ali para salvar suas vidas.
E qual é a resposta do governo? A promessa de instalar 12 mil câmeras em hospitais e postos. Mas, não nos enganemos: câmeras não salvam servidores nem pacientes. Apenas registram o caos. Filmam portas caindo, funcionários sendo ameaçados, patrimônio sendo destruído — mas não impedem nada disso.
A violência que explode dentro das unidades de saúde é consequência direta do abandono. Faltam vigilantes para proteger servidores e usuários. Faltam médicos, enfermeiros e técnicos para reduzir filas e esperas. Faltam condições dignas de trabalho para quem já atua, incluindo os próprios vigilantes, que sofrem com atrasos de salário e greves forçadas.
Não por acaso, em audiência pública realizada neste ano na Câmara Legislativa, o presidente do Sindicato dos Vigilantes do DF, Paulo Quadros, foi categórico: “Todos os dias tem um quebra-quebra em uma UPA, hospital… e o governo fecha os olhos. A câmera só vai filmar o que está acontecendo ali. É preciso aumentar o efetivo de vigilantes e de profissionais da saúde.”
O alerta é claro. A violência não nasce do nada; ela cresce no terreno fértil do descaso. Que é o que estamos assistindo ano após ano na saúde pública do DF. Por isso, insisto: precisamos de mais gente nos hospitais, UPAs e Unidades Básicas de Saúde. Mais vigilantes para garantir a segurança. Mais profissionais de saúde para assegurar atendimento digno. Mais respeito aos trabalhadores que, todos os dias, enfrentam a dor da população e, agora, também o medo da violência.
Ignorar esse cenário é naturalizar a barbárie. Cada agressão é uma ferida aberta no sistema de saúde. E o governo, que deveria cuidar, torna-se o próprio causador do problema ao negar contratações de servidores, negligenciar a gestão e se limitar a registrar cenas de caos. A saúde pede socorro. E esse clamor não pode ser gravado por câmeras: precisa ser ouvido com responsabilidade, coragem e ação.

