Antes de existir qualquer grande obra, qualquer tecnologia, qualquer ganho econômico, existe alguém que levanta cedo. Alguém que traz para si, seus braços, seu cérebro, sua vontade e seu ímpeto a responsabilidade de, pelo trabalho, fazer o mundo se mover. É o trabalhador, que constrói hospitais, que opera máquinas, que educa crianças, que colhe alimentos, que limpa as ruas, que cuida de vidas — muitas vezes silencioso, mas sempre essencial.

Em 1º de maio de 1886, um gigantesco protesto, nos Estados Unidos, por jornadas de oito horas diárias e melhores condições de trabalho deu início ao que hoje celebramos como o Dia do Trabalhador. Ao longo dos anos, muitas conquistas vieram, mas elas vivem sob constante ameaça. Por isso, o 1º de maio não é exatamente uma festa — é, antes, um momento de reflexão, conscientização e mobilização pelos direitos de quem trabalha.

Eu, que entre outras especialidades também sou médico do trabalho, carrego uma preocupação bem específica: a saúde física e mental do trabalhador. E nisso entram diversas dimensões: as condições de trabalho e de remuneração, a segurança no emprego e na aposentadoria, e os serviços públicos oferecidos aos trabalhadores e suas famílias — saúde, educação, segurança, transporte público. Tudo isso impacta diretamente a saúde de cada um.

Muito se fala das implicações econômicas em questões referentes às relações de trabalho, como a pejotização — a substituição da relação de emprego por contratos como Pessoa Jurídica –, perda de direitos trabalhistas e supressão de postos de trabalho pela aplicação da Inteligência Artificial. Mas é essencial que nossos legisladores e magistrados também considerem o aspecto da saúde. A promoção do bem-estar do trabalhador é condição básica para o bom funcionamento das empresas, do governo e do conjunto da sociedade, para o equilíbrio da previdência social e para o desenvolvimento econômico e social sustentado de um país.

Para exemplificar cito alguns levantamentos que são públicos: segundo projeções divulgadas em um estudo publicado em 2022 na revista científica BMJ Global Health, doenças cônicas podem produzir, em 2060, um impacto econômico de cerca de R$ 1,3 trilhão na economia brasileira. Outro levantamento indica que as doenças cardíacas geram uma perda anual de cerca de R$ 6 bilhões para a economia brasileira, com alto impacto em internações pelo SUS.

E essas condições de saúde geram impactos em produtividade, na previdência social e no desempenho geral da economia. Elas estão diretamente ligadas aos hábitos de vida, que são altamente influenciados pela quantidade de trabalho e pelas condições a que o trabalhador é submetido para o desempenho de sua atividade. Indicam, portanto a necessidade de que governos e empresas tenham políticas de promoção do bem estar do trabalhador e de suas famílias.

E é importante frisar que a relação entre trabalhador e empregador não é de antagonismo, mas de complementaridade. A saúde do trabalhador está diretamente ligada à saúde das empresas, pois é uma relação de codependência. O trabalhador no pleno exercício de seu potencial produz mais e fortalece as empresas e a economia – daí surgem mais empregos e mais prosperidade. É um círculo virtuoso que precisa ser estimulado.

Espero que essa visão seja uma das guias para a análise das decisões que estão sendo formuladas sobre os temas do trabalho nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. É com essa esperança que saúdo, com profundo respeito, todos os trabalhadores do Distrito Federal e do Brasil!